Assisti o filme sobre Vinícius, em homenagem aos seus 90. Eu já tinha o CD que, durante algum tempo, foi vendido em conjunto com o DVD. Além de uma seleção sensacional de músicas, em uma das faixas do CD, está “O Haver” – declamada pelo próprio Vinícius. Confesso que ouvir o CD foi bem menos angustiante que ver imagens de Vinícius bêbado e trocando oito vezes de “esposa”. Não porque eu fique chocada por ver auto-degradação ou porque eu pense que Vinícius é um grande puto-boemio-louco-desvairado, mas porque fiquei pensando na terrível frustração na qual o branco mais preto do Brasil esteve mergulhado durante toda a sua vida. Seus surtos de paixão pelas mulheres eram o combustível para sua produção. Vinícius necessitava do perfume feminino, do sorriso metálico das loiras, das saias curtas das morenas, do bom papo daquela mulher de meia idade ou da idiotice natual da moça de 16 anos. E, em cada nova aventura, Vinícius parecia querer ser arrebatado pelo amor e, amando, chegar a um estágio de nirvana espiritual e perfeição estética-literária. E aí, as duas coisas pareciam se misturar. Para escrever, precisava da inspiração focada no seu afeto descontrolado pelas fêmeas. Daí, surgiram os escritos que necessitavam da apreciação do público. E, então, para sustentar o reconhecimento, o poeta corria, loucamente, atrás de suas inspirações: as mulheres (ou o amor?). Nesse ciclo, doses industriais de whisky, cigarrinhos, baseados, cafés, viagens e amigos – tudo isso para que Vinícius vivesse de forma arrebatadora atrás do único objetivo de sua vida: amar e ser amado. E, nesse ponto, o Poetinha sucumbiu. Por mais paradoxal que seja, o fracasso de Vinícius por não ter amado e por não ter sido amado de forma plena foi responsável pela beleza e intensidade de toda sua obra. Pode parecer absurdo, mas os verdadeiros amantes estão no anonimato e não deixaram nada escrito – a não ser cartas guardadas, em local secreto, pela amada. Eles não têm tempo para pensar o amor porque eles vivem o Amor, com todos os inconvenientes da convivência. Desprezar Vinícius? Nunca. Certamente, seus sonetos serviram de inspiração para que seu pai se declarasse à sua mãe e, assim, após muita lábia do coroa e muito charme da véia, transformaram-se em dois desconhecidos, amantes autênticos, andantes pelas ruas de Ipanema e casados há 25 anos. E, numa esquina qualquer, uma voz masculina e rouca com sotaque de carioca cantarola, bem baixinho: “Vou te contar/Os olhos já não podem ver/Coisas que só o coração pode entender/Fundamental é mesmo o amor/É impossível ser feliz sozinho…”
A primeira figura inanimada que vejo ao chegar no trabalho é uma foto do nosso presidente. A foto mostra o grande molusco com o peito inflado e um sorriso simpático nos lábios enquanto a bandeira do Brasil está no segundo plano da foto – no sentido objetivo: segundo plano da geometria espacial. É engraçado porque deve ser a primeira imagem que vejo quando saio do elevador do meu andar. Dá um pouco de desespero porque eu não sei exatamente o que pensar ao ver a foto: “será que vale a pena estudar?”, “se ele pudesse, daria um golpe para se reeleger”, “não, eu não vou sorrir pra você, senhor presidente”, “vai à merda com sua bolsa família”. Enfim, eu quase recito mantras ao olhar para a foto do Lula. A imagem dele é meu saco de pancadas mental e diário. Hoje mesmo, quando vi a foto, eu pensei: “que sono, presidente! E não adianta sorrir pra mim”. Apesar de não ser muito afeiçoada pelo Lula, ele tem sido um bom ouvinte porque não discursa e não fala da vida de sofredor que teve quando era metalúrgico. Mais um detalhe: há uma mesinha abaixo da foto do Lula com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil.
Pausa.
No meio do caminho para a minha sala, há um cartaz colado em uma das portas das inúmeras salas por onde devo passar até chegar no meu canto. O cartaz é azul e nele está desenhado um tucaninho-imitação-barata-do-pica-pau. O tucano está pousado sobre a letra “S” de PSDB. Abaixo, há uma série de frases soltas: “Bolsa-Família, Bolsa Alimentação. É o Brasil no caminho do desenvolvimento”.
Pausa
Ontem, parei numa faixa de pedestre para que um ciclista atravessasse a rua. Ele estava usando uma camiseta com o rosto de Che Guevara estampado e tomava um gatorade. Quando os carros pararam para que ele passasse, o jovem ciclista deu a última golada de repositor de sais, jogou a garrafa plástica em via pública e seguiu seu rumo.
***
A cada dia que passa, tenho a impressão de que a “doença do futuro” não será a depressão, mas a esquizofrenia.
“Hablar es incurrir en tautologías” (J. L. Borges). Essa frase-bilhete, num pedaço de papel que já havia sido usado para anotar dados pessoais, chegou até mim no meio de uma palestra. O bilhete continua colado em alguma página do meu moleskine vermelho e, desde então, tem servido como cláusula do meu código pessoal. Cerca de três meses antes de ter recebido esse bilhete, Captain, my captain sugeriu a leitura de “A rebelião das massas” do Ortega y Gasset. Este livro inclui o “Prólogo para Franceses”, uma das melhores coisas breves que já li. Além de ter aprendido a origem histórica da expressão snob (= sine nobless, sem nobreza), fiz questão de decorar um trecho que também passou a habitar o meu código pessoal: “Acreditando no arraigado preconceito de que falando nos entendemos, acabamos por nos desentender muito mais do se procurássemos nos compreender, mudos”.
Essas duas assertivas – que costumam guiar os meus diálogos (ou a falta deles) e que têm cara de auto-ajuda-para-sobrevivência-social - passaram por várias provações tensas. Continuo tendo a impressão de que a maioria das coisas não precisa ser conversada, discutida, debatida, principalmente, no que se refere às relações interpessoais. Se se ficar atento (e nem tão atento) aos sinais que são dados, as palavras são inócuas; elas dispensam-se a si mesmas.
Quando eu digo isso, alguns tentam rebater afirmando que os interlocutores não podem, constantemente, fazer as vezes de magos ao se esforçarem para adivinhar já que os sinais comportamentais também são capazes de nos enganar. Ora, ora. Vê-se, então, que o imbróglio é a enganação e, nem tanto, as palavras ou o comportamento. Isto é, o que incomoda é a incoerência entre aquilo que se diz e como se age. Ou, ainda, a enganação quase metalingüística – quando se diz algo que não é capaz de se sustentar pela mera linguagem e, tampouco, pelos gestos.
De qualquer forma, tenho tentado sair da falácia que costumo me envolver ao afirmar, para mim mesma, que não gosto de me comunicar. Não é isso. Em verdade, eu não desgosto das palavras, apenas atribuo uma força sobrenatural a elas, capaz de ver um vínculo real e inquebrável com seus pronunciadores. Como conseqüência, eu acredito que elas - seu sentido literal, semântico e estrutural - funcionam como índice de caráter.
Como eu não quero ser cobrada da mesma forma que cobro do meu interlocutor e também não acredito que seja dotado de muita veracidade esbravejar que tenho um caráter firme e belo (ó, que gracinha), eu abstenho-me de dizer qualquer coisa. E, quando digo, tenho a sensação de já ter feito um pacto de semi-escravidão com o que sai da minha boca. A solução que tenho encontrado consiste em escutar, fazer meia dúzia de perguntas e, depois, deixar pairar um silêncio interior e mortal.
Nessas horas, tenho que admitir, sinto um orgulhosinho de mim mesma. A idolatraria pelas palavras já me rendeu bons boicotes pessoais necessários ao ato de “serenar”. Isto ocorre quando quero compreender tudo – absolutamente tudo – o que está acontecendo com o meu interlocutor e comigo e com o mundo, mas me vem à cabeça o significado de minha honradez por manter o meu interior intacto e por ser alguém egocêntrica o suficiente para não me interessar pelo que há atrás das palavras soltas. Não vou negar que bate um desespero por querer saber o que passa com aquele que mantenho contato (e as palavras são necessárias para decodificar), mas é pura curiosidade. É difícil: porém, não tem nada a ver com preocupação pelo bem-estar alheio e, talvez, nem com o bem-estar próprio. A palavra, os gestos, o silêncio, a dissimulação – isto tudo misturado é o que está em jogo.
O bom boicote é isso: viver o código pessoal capitaneado por Borges e Ortega y Gasset. No sentido menos teórico, é ser forçada a ouvir o eco do que já fora dito, de outras formas, em outras circunstâncias e fazer meia dúzia de quaisquer ruídos embora já esgotada e já ciente dos signos e significados que serão ardilosamente reproduzidos.
Trocando em miúdos, PALAVRAS, com toda a força que carregam, são bem-vindas. Mas, o silêncio, sem nenhum significado, também. O resto, independentemente de ter ou não razão de ser, beira charlatanismo, no sentido mais geral, tosco e feio do termo.
***
Diálogo permitido. Lição 01: aprendendo o nome do que há no mundo.
- Qual é o nome daquela coisa que os exotéricos chamam de ajuda dos astros, vozes de fadas ou conspiração do universo, hein?!
- Intuição
- Ah, i-n-t-u-i-ç-ã-o. E como faz para tê-la?
- Não faz nada. Você já nasce com ela, mas não sabe.
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Sério, cala a boca. Eu mal acordei e você já está falando sem parar.
É bom livrar-se de si mesmo, ter a alma simples e, por isso, mais tranquila. Mesmo sabendo que, por óbvio, esses pensamentos têm prazo certo de validade, é gostoso tê-los.
Eu só gostaria de dizer que estou me sentindo a Anne Gauthier.

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Só EU que penso que a Anouk Aimée é linda de morrer? (eu e meu ego…)

O charminho dos óculos.

E dos cabelos ao vento…
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Já que estou na fase “uma imagem vale mais que mil palavras” (clichê?!), fotografia de Irving Penn (que Deus o tenha) abaixo.

Frases que têm a capacidade de arrepiar meu eu lírico:
1) Não me arrependo de nada que fiz.
Como assim, meu caro? Não dá para acreditar em uma pessoa que não se arrepende de nada que tenha feito a fim de mostrar que é alguém experiente. Afinal de contas, “experience is the name every one gives to their mistakes”.
2) Minha vida é um livro aberto.
Expansividade. Não é nem que a pessoa não tenha segredos a esconder, mas ela pensa que todos estão interessados em sua vida. Então, tende-se a monopolizar as conversas contando o que fez, deixou de fazer, do que gosta, quem se detesta e por aí vai.
3) Falem mal, mas falem de mim.
Ser o centro das atenções: esse é o objetivo. Passar despercebido pelo mundo? Nem pensar. O bom mesmo é estar na boca do povo. (Não falem mal, nem bem. Não falem de mim, por obséquio.)
Ai ai, tenho me sentido tão inadaptada!
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Já fazia algum tempo que eu não lia alguma coisa mulherzinha que não tivesse pitadas do insuportável “Sex and the City” e fosse uma versão light das idealizações feitas pelos personagens femininos de Jane Austen.
“Eu queria voz. Um pouco rouca e grossa, que combinasse com sua barba espaçada, mas que completasse substancialmente o charme de seus cabelos castanhos que insistiriam em cair sobre seus olhos. Aliás, seria mel. A cor dos olhos e o gosto dos seus beijos. A pele clara combinaria com o sorriso largo, enquanto a sua gargalhada produziria efeitos terapêuticos ao ecoar em mim.
Eu queria braços fortes para me carregar em dias de sono e me abraçar loucamente quando fruto da saudade. Das suas mãos emanaria o carinho perfeito para tardes chuvosas e aparariam com candura desde as minhas lágrimas singelas até as torrenciais. Nas suas costas caberiam a nossa casa e nossos sonhos e se assemelhariam ao tamanho do seu coração bondoso para com o mundo que o cercasse.
Eu queria que seus dedos dedilhassem várias canções ao anoitecer na varanda e que nelas eu viajasse nas trilhas que embalaram nossas melhores lembranças. Queria também uma fé lúcida e tenra que trouxesse o céu para mais perto da gente. E de suas falas, eu queria as piadas graciosas, os contos e poesias, as palavras mais certas, as dúvidas necessárias para desvendarmos juntos.
Eu queria nossos filhos, com dois nomes e setenta por cento mais do jeitinho dele do que meu. Ao querer neles tudo isso que eu sempre quis: o amor, o amado, o amável. E dia após dia, durante todo o tempo em que eu pudesse tê-lo ao meu lado, eu o queria ali: sussurrando que me ama, bem baixinho e com aquela voz rouca, enquanto eu terminaria de recortá-lo e montá-lo na minha memória já falha e cansada, com o coração repleto de paz.”
Créditos: J. K. in Minhas Vírgulas.
Vendo a sabatina de Toffoli, cheguei a duas conclusões principais: eu tenho chance de ter meu futuro promissor de volta e, a pior, estamos vivendo o fim dos tempos.
Não se precisa dizer sobre o currículo político do jovem AGU (que assumiu o cargo a convite do presidente) porque isso já está na mídia. Não se precisa dizer das reprovações em concurso para juiz; da inexistência de cursos de pós graduação – stricto e latu sensu; da advocacia quase que pessoal para o presidente Lula; da assessoria jurídica prestada ao PT; das condenações, em primeira instância, sofridas pelo escritório do qual era “sócio-dono”.
Dentre os pronunciamentos que ouvi na CCJ do Senado, tive que dar atenção ao do Mercadante e ao do Álvaro Dias sobre o notório saber jurídico e a reputação ilibada. (São três os requisitos para assumir o cargo: ter mais que 35 e menos de 65 anos, notório saber jurídico e reputação ilibada)
Senhor Mercadante, que deve ter feito as pazes com Lula XIV, dono da frase implícita “o partido sou eu”, disse que o fato de Toffoli não ter mestrado e doutorado não afasta o notório saber jurídico. Álvaro Dias, por outro lado, alfinetou o indicado dizendo que, diante de tantas causas com as quais Toffoli já teria algum envolvimento, sua indicação ao STF consistiria em férias porque estaria impedido de atuar na maioria delas – sem deixar de mencionar a falta de mestrado e doutorado. Mas, vamos lá.
Tudo bem que aprovação em concurso público pode não significar notório saber jurídico. Mas, ter sido reprovado DUAS vezes para concurso da carreira de magistratura e, para se justificar, utilizar-se da desculpa de que optou pela advocacia, simplesmente, não é satisfatório. Se tivesse mesmo optado pela advocacia, não teria tentado DUAS vezes. Em verdade, foi a magistratura que não optou por ele. A advocacia foi uma espécie de ”se nada der certo, serei advogado”.
Tudo bem também que mestrado e doutorado podem não ser o oráculo do notório saber jurídico. Mas, não se pode ignorar quase que o senso comum. Ainda que em tese, na carreira acadêmica, tem-se que estudar matérias relativas não apenas à práxis, mas, também, àquelas conexas ao Direito e que embasam sua própria razão de ser e que, na maioria das vezes, são negligenciadas pelas universidades.
Tudo bem que se pode adquirir conhecimento advogando para partidos, qualquer que seja. Aliás, pode-se adquirir conhecimento advogando.
Esses fatores isolados, de fato, não conferem um saber amplo. Mas, a soma deles (e outros), possivelmente, sim. Ocorre que há uma diferença nem tão tênue assim entre conhecimento e notório saber jurídico. A questão, pelo que vi na sabatina, é conceitual. Trata-se de delinear os parâmetros da expressão “notório saber jurídico” que é carregada de subjetivismo proposital para possibilitar ao Presidente e ao Senado o exercício de suas atribuições. Em verdade, esse subjetivismo pressupõe bom senso por parte do chefe do Executivo e da House of Lords (cof cof). De qualquer forma, o notório saber jurídico pode ser tratado como o reconhecimento que determinada comunidade tem por uma personalidade, embora isso não seja absoluto e incontestável.
Façamos uma comparação. A Academia Brasileira de Letras é formada por pessoas com notório saber literário e assim reconhecidas pela comunidade literária. Teoricamente, ok. Guardadas as devidas proporções, Toffoli assumir a cadeira de Menezes Direito é a mesma coisa que Paulo Coelho sentar na cadeira de Olegário Mariano. (ops! a ABL também passa pela crise do STF).
Embora eu tente dar o braço a torcer, é certo que o coitado do Toffoli não tem competência para estar ali. Não digo que o companheiro seja burro, mas ele não tem o notório saber jurídico. Apesar de muito romantizar e até concordar que há muitos senhores detentores de verdadeiro saber que não ocupam uma das cadeiras da bat caverna (leia-se STF), é fato que um rapaz de 41 anos, sem mestrado e sem doutorado, advogado do partido e do dono partido, não exercerá a função de julgador. Não estou dizendo que ele exercerá bem ou mal; simplesmente, não exercerá.
Perguntaram a opinião de Toffoli sobre sete temas atuais. Destes sete, cerca de cinco, o mais novo Vossa Excelência já havia se posicionado, pela AGU ou pelo PT. E ainda disse que isso era página virada em sua vida…
Sim, é possível que um advogado exerça a função de ministro do STF. O problema é quando toda a trajetória do advogado está ligada àquele a quem incumbe indicá-lo para tanto.
Sem querer ser repetitiva: o caso Tofolli é culpa do partidarismo que acomete o movimento estudantil. Ele estudou na USP. Era militante. Cresceu e se envolveu com o partido. E fim. STF.
O que mais me causou espanto (sim, surpreendo-me com obviedades) foi a quase unanimidade pela indicação. De fato, não existe oposição. O que não me causou tanto espanto assim foi o término brasileiríssimo da sabatina. Receber o abraço do irmão, portador de Síndrome de Down, quando o cansaço já lhe acometia, foi bastante sentimentalóide e, por isso, um ato recheado de patriotismo. Oras! Certamente, nosso amigo será defensor da tese de que os ministros do STF devem ir às ruas.
No fim de tudo, eu senti pena do professor Cezar Saldanha, um senhorzinho muito lúcido e parecido com o meu avô (que Deus o tenha), de quem ouvi uma palestra sobre “O Tribunal Constitucional como Poder”.
Do jeito que as coisas andam, não saberei responder aos meus filhos em que consiste o respeito aos mais velhos. Não saberei responder aos meus alunos o que significa notório saber jurídico. Não saberei justificar a mim mesma o porquê de sofrer por não estudar o suficiente para ser qualquer coisa-mestranda-doutoranda-whatever.
Passei os últimos trinta dias com uma nuvem sobre a minha cabeça. Nada de pensamentos muito úteis, decisões incisivas, momentos de desespero ou de riso fácil. Esses dias muito mornos me deram a sensação de perda de tempo. E eu fiquei pensando o quão estranha eu sou. Primeiro porque eu me queixo da instabilidade do meu humor, mas aí, quando as coisas estão relativamente estáveis, eu faço birra porque está tudo muito linear. Essa inconstância é responsável por causar uma sensação de “eu não me suporto”. E como dói não suportar os defeitos frívolos, as qualidades ainda não descobertas, os sentimentos confusos, os fatores incontroláveis, um certo mau humor que não vai embora. Dói ter que suportar o tempo, a provisoriedade e dói ter que admitir que isso é coisa de criança mimada que chora quando é contrariada.
***
No entanto, há certas coisas pelas quais meus ouvidos clamam independentemente de todo o resto.
***
E há, também, conselhos dados na penumbra.
“Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés”. (Angenor de Oliveira)
Foi apenas um sonho (Revolutionary Road) é um daqueles filmes que, por mais que não seja o preferido, fica na lembrança. A direção é do Sam Mendes e a atuação fica a cargo do casal Titanic: Winslet e Di Caprio. O Mendes foi também o diretor de Beleza Americana. Eu só gostei desse último porque assisti quando bem novinha e, naquela época, eu gostava de filmes que chocavam, principalmente, se se fazia críticas à american society.
De qualquer forma, o Revolutionary road foi um filme que me angustiou muito porque é um filme que toca na insatisfação, na fuga e nos sonhos.
Sinopse: Anos 50. Frank (Leonardo DiCaprio) e April (Kate Winslet) formam um casal feliz. Eles sempre se consideraram especiais e prontos para levar uma vida seguindo ideais. Ao se mudarem para uma casa na Revolutionary Road eles ficam orgulhosos por declarar independência da inércia suburbana que os rodeava. Porém logo eles percebem que estão se tornando justamente aquilo que não queriam ser. Frank está em um trabalho insignificante e tem medo de tudo, enquanto que April é uma dona de casa infeliz. Decidida a mudar a situação, April propõe que comecem tudo de novo, deixando de lado o conforto da atual casa e recomeçando em Paris. Só que, para executar este plano, eles chegam aos seus extremos.
Lembro-me que saí do cinema pensando na quantidade de coisas que me causavam algum tipo de chateação e, para me livrar dela, eu imaginava uma mudança de cidade, de país, de meio social, de formação. Em alguns momentos da vida, cheguei a planejar alguns meses em Buenos Aires e uma vida inteira em Salamanca ou Lisboa. Acreditava que, nesses lugares, eu poderia ser eu mesma – seja lá o que isso signifique. Nesses lugares, eu poderia dançar todos os dias, ler os clássicos, trabalhar numa livraria, ter aulas de história da arte, morar sozinha num apartamento pequeno e aconchegante e encontrar um grande amor.
A questão é que a distância do Brasil varonil ou do deserto asfaltado não torna os problemas distantes de mim. Ou seja, não adianta sumir desta terra para outra, qualquer que seja. Por mais que se tente correr, os problemas estarão ali porque fazem parte da realidade, fator que não tem nada a ver com territorialidade. A dança, os livros, o amor e o cantinho próprio podem, simplesmente, não ser a solução. O que confere a esses mimos um gosto especial é a novidade que eles representam à minha realidade.
O inconveniente de se estruturar um sonho – sim, sonhos também são estruturáveis, à moda alemã - baseado na inexistência de obrigações, na ocorrência de uma plena felicidade e na imaginação de um pedaço mágico de terra é que, de um sonho, chega-se ao mais completo delírio (leia-se: diversão).
No entanto, em determinado momento, o corpo e o espírito parecem ficar fadigados com a diversão delirante. É como se eles quisessem e precisassem de um grau, ainda que mínimo, de sensatez para permanecerem na realidade justamente porque sabem que esta é o maior tesouro, tudo o que se tem. Encará-la de uma forma menos antipática pode ser a maneira pela qual se conquista, inclusive, sonhos saudáveis – aqueles que não me causam um sentimento de impotência, frustração e ansiedade por não ser dona de um pedaço da lua, por não ser amiga de Jorge Luis Borges, por não ser Miss Bennet e, conseqüentemente, não ter Mr. Darcy.
E daí? Tudo o que tenho é esse segundo, esse pensamento, essa palavra. Só tenho aquilo que vem de mim e, nem assim, dotado de tanta certeza. Angustiar-me com os próximos cinco minutos, com a aparência de velhice, com a educação dos filhos, com a doença que não veio, além de ser ato de imaturidade, é ato que atenta contra o meu corpo e o meu espírito que têm passado muito mal com tanto delírio – que deixou de ser divertido há muito tempo.
A paz é necessária até para sonhar. Que ela venha logo, portanto.
***
Amor no hospício (Dylan Thomas)
Uma estranha chegou
A dividir comigo um quarto nessa casa que anda mal da cabeça,
Uma jovem louca como os pássaros
Que trancava a porta da noite com seus braços, suas plumas.
Espigada no leito em desordem
Ela tapeia com nuvens penetrantes a casa à prova dos céus
Até iludir com seus passos o quarto imerso em pesadelo,
Livre como os mortos,
Ou cavalga os oceanos imaginários do pavilhão dos homens.
Chegou possessa
Aquela que admite a ilusória luz através do muro saltitante,
Possuída pelos céus
Ela dorme no catre estreito, e no entanto vagueia na poeira
E no entanto delira à vontade
Sobre as tábuas do manicômio aplainadas por minhas lágrimas deâmbulas.
E arrebatado pela luz de seus braços, enfim, meu Deus, enfim
Posso de fato
Suportar a primeira visão que incendeia as estrelas.
***
Deixei alguns dinheiros na livraria. E quase não resisti à obra completa de Baudelaire.
De uns tempos pra cá, descobri um novo negócio to waste my time with: moda. Passei a ler revistas e conversar a respeito das coleções do Oscar de La Renta – sempre impecáveis – ou Versace – sempre depravadas. Após ter virado “mocinha”, – entre aspas porque eu continuo adorando e usando, nas mais diversas circunstâncias, jeans, t-shirt, tennis, oversize bags and jacket, sem me preocupar com salto alto ou o uso de colares, pulseiras, anéis – encontrei uma entrevista com a Constanza Pascolato, consultora de moda, que é “consagrada como uma mulher que entende tudo de arte, música. Dona de uma cultura densa, tem como modo de vida falar tudo o que pensa”. (medo!)
***
Entrevistas são muito peculiares. Ao mesmo tempo em que podem ser muito agradáveis, também podem ser desastrosas em razão da falta de eloqüência, neurônios e/ou boa vontade do entrevistado, mas, principalmente, da incompetência do entrevistador para conduzir a conversa de maneira linear e coerente. De qualquer forma, eu prefiro ler a assistir entrevistas.
Certa vez, assisti Marília Gabriela entrevistando o Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e autor de “A economia em Machado de Assis”. Após ter ouvido a ex-mulher de Gianecchini perguntar ao Franco o que este achava acerca da possível traição de Capitu (juro!), eu prometi a mim mesma que nunca mais veria Jô Soares, Oprah Winfrey e afins. Em suma, programas de entrevista são como hablar es incurrir en tautologías.
***
Eu não sei o que o entrevistador perguntou a Constanza, que conta com 70 anos, para que ela dissesse os seguintes trechos que aparecem em destaque nas páginas da revista (negrito-itálico são enfáticos e meus): “Eu vivi muito, tive quatro maridos, e foram pessoas que eu, hoje, admiro muito. E eu entendo que eles me ensinaram bastante coisa. A experiência não passou disso, porque não sou disso, porque não sou dessa coisa de namoro em série. Isso acontece porque quando as pessoas se encontram e namoram, na verdade, elas estão pensando em si próprias, e naquela outra metade que ela encontrou para ser arrimo, a felicidade, e esquecem que tudo isso a gente tem que conseguir sozinho.”
E depois: “O que eu vejo por aí, é que as pessoas temem que no fim da vida não só fiquem mais velhas, mas inúteis. Têm medo da inutilidade e perdem essa possibilidade. Estou mais interessada em entender o que é o amor de verdade, ou seja, aquele que você tem para o companheiro, para ser o marido, ter os filhos. Isso é uma questão de aceitação! As pessoas acham que compaixão significa piedade e não é.”
***
Eu até tive a idéia de comentar os trechos destacados, porém, acredito que tais comentários seriam equiparados às frases de Galvão Bueno narrando Fla X Flu. Ah, e as frases da senhorinha são bem auto-explicativas (ainda tem hífen?)
O que me restou? Rir das declarações da Senhora Pascolato. Pergunto-me, no entanto, se ela, realmente, é uma boa consultora de moda. Como eu confio que sim, gostaria de fazer uma pergunta. O que a senhora acha do modelito abaixo para ser usado num casamento, às 10h30? Sou alta, magra e loira (ui!), não tive quatro maridos (cueca no varal é só uma vez na vida) e não estou buscando – como é que se diz mesmo? – arrimo (não, não é felicidade, chéri).
Desde já, agradeço a atenção dispensada, pseudo-lady-múmia-cheia-de-pérolas.

Fuçar a vida alheia é uma coisa que não me permito fazer (não, não estou falando de orkut). E, quando caio nessa tentação de big brother, tenho vontade de pedir desculpas àquele que, por mim, foi investigado. Talvez porque eu gostaria que implorassem meu perdão por vasculharem a minha vida privada. Por mais que eu gaste um tempo imaginando como algumas pessoas vivem em sua intimidade, eu não gosto – e sei que não é lógico – ir atrás de evidências. Primeiro porque são evidências da vida dos outros. Depois, porque a busca vicia e, então, ela se torna mais importante do que o próprio resultado da investigação. E, por fim, o ato de fuçar atiça a curiosidade, o que acaba fazendo um terrível mal quando se conhece o investigado.
A sensação que dá, após a pesquisa da vida alheia, é a de que estamos escondendo do semelhante algo que, naturalmente, lhe era exclusivo. Levamos as conversas posteriores num misto de orgulho e receio. Orgulho por termos encontrado, astutamente ou não, aquele detalhe velado da vida do outro. Contraditoriamente, temos receio de sermos descobertos por esse outro já que, em verdade, desejamos e empreendemos todos os esforços para encontrar um segredo, o que é tão grave quanto revelar segredos.
E não é só isso.
Eis que vou para o trabalho por um novo caminho e pego um engarrafamento monstruoso. Atraso de 30 minutos.
Eis que ligo a televisão e me deparo com o tribunal de inquisição: Lina X Dilma.
Eis que leio o Estatuto da Igualdade Racial, a mais nova aberração do politicamente correto brasileiro.
Eis que abro a Folha e dou de cara com JP Coutinho. O melhor: fui autorizada a recortar o jornal.
Eis que chego em casa e encontro a Dicta&Contradicta sobre o meu travesseiro; aquela capa vermelha por cima da fronha de bolinhas coloridas dá vontade de devorar.
Eis que descubro que tomei mais café do que água durante o dia.
Eis que hoje merece uma boa dose de qualquer coisa alcóolica acompanhada de pitadas de humor negro.
Eis que Roads, do Portishead, é a música da semana. E ai de quem disser que é porn music!
Em meados do semestre passado – época em que eu passava as tardes lendo, fumando, tomando café, conversando e ouvindo música -, fui agraciada com o empréstimo de uma coleção de três cds intitulada Jazz Divas, comprada em Paris por uma bagatela.
Começo a ouvir esses cds e perco o sono. Neste momento, por exemplo, eu teria que dormir, mas Peggy Lee, Anita O’ Day, Dinah Shore, Lena Horne, Maxine Sullivan e suas amigas insistem em cantar para mim. E eu começo a buscar, de maneira obsessiva, as várias versões de St. Louis Blues, Sophisticated Lady, You’re my thrill, Smoke gets in your eyes – essas canções com um quê sensual e sobrenatural, ao mesmo tempo.
De uma forma muita encantadora, essas músicas funcionam como elegantes e misteriosas cantadas femininas: sem exageros, bem articuladas e excessivamente melodiosas. Atuando assim, discreta e eficazmente, muitas mulheres já estariam acompanhadas de seus Humphrey Bogart, Clark Gable, Henry Fonda e Alain Delon.
Mas, ao invés disso, vamos a bar com as amigas, enchemos a cara por causa de dor de cotovelo, falamos um monte de palavrões e batemos na mesa dizendo: “Eu nunca mais vou me envolver!”. Enchemos a boca para dizer isso sem nunca termos nos envolvido de uma forma menos tosca, mais sincera e, porque não dizer, mais feminina.
Na boa, se eu fosse uma diva do jazz, eu teria escrito uma cartilha, tipo guia de paquera, baseada nas letras que emocionavam os casais na década de 30. Eu teria ficado milionária. Afinal de contas, todas as mulheres gostam, até mesmo, de ler Caras. Mas, nunca se sabe. Eu poderia estar na sarjeta também…
Há coisas que não se supera. Digo isso, apenas, por mim mesma. Eu não sou resignada nem em relação à minha reprovação na primeira prova prática de direção, quiçá o resto. Durante o processo de “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, eu ouvi as piores chateações. Frases como “para tudo na vida, há um sentido”; “você não passou agora, mas passa depois”; “ah, isso não é o fim do mundo” são grandes inconveniências a serem ditas. Eu prefiro ouvir “Nossa, que pena!” ou perceber que meu interlocutor se esforça para mudar de assunto e, logo em seguida, ser convidada para tomar um chope.
Abomino esses discursos conformistas que se voltam ao sofredor com olhar de misericórdia ou declarações envoltas por um falso ar de fortaleza, do tipo “eu passei por isso e superei!”. Em verdade, não é tanto pelo conteúdo e pelo significado das palavras em si, mas pela falta de afeição entre mim e os pronunciadores dessas exclamações; essa ausência de afeição não os autoriza a me ofertar seus pêsames. Ao contrário do que acontece com aqueles a quem chamo de os meus – à la Yeshua HaMaschiach.
Uma forma de identificar a amizade fiel e confidente é passar por derrotas e observar se o tal amigo se preocupa em dirigir a palavra a você, ao invés de fazer um discurso voltado para a salvação da humanidade; se o tal amigo questiona a sua agonia, ao invés de contar a experiência própria utilizando-se de contos metafóricos; se o amigo, simplesmente, não diz nada, não pergunta nada, mas, convida-o pruma dose de chivas on the rocks acompanhada de fumaça de carlton após o trabalho, simplesmente, para ouvir suas lamúrias.
Quando passei por momentos de melancolia devido à não-aceitação de fracassos, descobri os meus e os insuportáveis. Descobri, também, que palavras de conforto podem ser abolidas do vocabulário quando não acompanhadas do amor-amizade – que supera a mera afeição.
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Estou preocupada com o meu “estilo” de escrita. O Fred, membro da banca, disse que meus textos são angustiantes. E, hoje, o chefe disse que eu preciso escrever de forma “menos advocatês” – embora eu ainda esteja descobrindo o que é o “advocatês”.
Há pouquíssimo tempo, conheci, por obra do acaso, alguns novos “companheiros” da UNE. Não conversei com eles, mas acabei dando uma passada rápida no auditório onde se deu a posse dos novos integrantes da presidência já que eu havia encontrado uns amigos reacionários que disseram: “- Nossa, você por aqui! Vamos ali ver os comunistinhas da UNE!”
Eu não fiquei no auditório nem um minuto; não porque eu tenha ido ao auditório apenas para zicar o evento ou para rir deles porque não tenho tempo e nem fôlego para esse tipo de tarefa. Nesses poucos segundos em que eu estava lá, ouvi as palavras “companheiro”, “ditadura”, “socialismo”, o que foi suficiente para me levar de volta ao nono andar.
Eu, particularmente, detesto manifestações de qualquer gênero. Tenho pânico de multidão reunida para o mesmo objetivo, seja ele qual for – passeata em defesa da vida, shows de axé ou jogo de futebol no maracanã. Não adianta; eu não compareço.
Talvez, por isso, eu tenha antipatia a movimentos cujo objetivo inclua a reunião de várias pessoas para fazê-las ouvir as palavras citadas ali em cima. Nas poucas vezes em que compareci a algum tipo de deliberação pública lotada, não foi feito nada. Apenas, um monte de palavras dando borrachada nos ouvidos da multidão.
Falar para multidões pode ser perigoso. No caso dos estudantes é um pouco mais complicado já que somos doutrinados, durante toda a vida escolar, a sermos “contra o sistema”. Até eu, que estudei no Colégio Militar, tive um professor no terceiro ano que dava aula de portas fechadas e fazia propaganda do comunismo. Naquela época, eu achava que o Movimento dos Sem-Terra devia quebrar o Congresso Nacional, invadir as fazendas e dominar o país.
Então, após o vestibular, entramos na universidade com aquele sentimento de culpa por sermos burgueses enquanto a África passa fome, os nordestinos morrem de sede e os índios sofrem pela demarcação de suas terras. Entramos, também, com aquela mentalidade de que as pessoas que defendem o livre mercado, a propriedade privada e a liberdade individual são burras já que elas são “a favor do sistema” – os opressores que só querem ganhar dinheiro às custas dos pobres. Os inteligentes são os que pensam em uma nova ordem recheada de liberdade, igualdade e fraternidade, os que são “contra o sistema”. Eles são os sábios porque pensam numa estrutura totalmente nova, iniciada do nada em que tudo é de todos, o Estado é o nosso pai mais querido e não há mercado.
É assim que encaramos a universidade: um meio, ainda que precário, pelo qual conseguiremos alcançar nosso paraíso. Longe de afastar os nossos idealismos juvenis, o problema da UNE é que ela segue com uma luta polarizada. Eu não sei se os estudantes “a favor do sistema” foram expulsos do movimento estudantil ou se nunca tiveram interesse em participar das deliberações. Os que estão lá, portanto, compartilham da mesma linha de pensamento – cotas para negros e índios, discurso de gênero, invasão de reitoria.
No entanto, o ser contra o sistema engloba tanta coisa que os estudantes acabam dando pitacos em áreas que, inicialmente, não lhes diziam respeito, como a reforma tributária, a prisão de Daniel Dantas e tantas outras coisas. O que estou dizendo é que os universitários, a UNE e o Direito achado na rua deveriam prestar mais atenção no primordial: a formação – moral e intelectual – dada aos estudantes. Só assim não se gastaria energia esbravejando contra aquilo que não lhes atinge, pelo menos, a curto prazo e diretamente.
Por fim, pelo que vi, os engajados da UNE têm cara de pai de família, ou seja, foram estudantes na época de Woodstock, mas ainda não largaram o osso. Talvez, o problema por lá não seja só ideológico.
Já faz um tempo que deixei de reclamar da vida para algumas pessoas. Logicamente que os mais próximos continuam sofrendo ao ouvir minhas ladainhas constantes a respeito dos meus “quereres”. A questão é que certos fatores – como a não afeição pelo Direito, a vontade de continuar só estudando, a desesperança completa de um dia vir a fazer algo que me agrade – reunem-se ao meu desprezinho por trabalho. Isso não significa que eu seja preguiçosa. Mas, devo reconhecer: eu não gosto de trabalhar. E eu já descobri que, por mais que a matéria do labor seja interessante, eu não gosto da ação trabalhar.
E por que? Penso nessa resposta todos os dias e sou capaz de enumerar algumas hipóteses que já levantei para responder essa indagação. Algumas respostas são fúteis; outras, nem tanto. A primeira das coisas é abrir os olhos em horário certo e ter que usar roupas formais, o que inclui sapatos fechados que ferram com o meu pé de maneira tão absurda que eu preferiria ficar com uma sapatilha de ponta sufocando meus dedos. O segundo fator é a convivência com estranhos. Definitivamente, eu me sinto mal por ter que andar nos corredores e cruzar com os senhores engravatados, barrigudos e cochichadores - todos estranhos. Ah, também tem a questão de que todo mundo trabalha feito corno. Isso não é relativo. Pelo que tenho percebido, ou não se trabalha ou se trabalha demais ou se é estagiário. E, convenhamos, sentir cansaço por causa de trabalho – ter atendido 100% da demanda, ter ido às reuniões de comissões, ter feito o social com aquelas pessoas com quem é imprescindível manter contato - é terrivelmente… cansativo. Além disso, o volume de repetições de tarefas a serem desempenhadas sem que, com isso, haja esforço dos neurônios desgasta o trabalhador, apesar do dinheiro que reluzirá no caixa eletrônico ao final do mês. Em consequencia do excesso de trabalho, não se tem tempo para pensar, cuidar e mudar de vida.
Aí, eu me lembro da cena do filme do Chaplin, Tempos Modernos, em que os trabalhadores se vêem alienados (com a desculpa do termo marxista) por causa da fadiga laboral causada pela fábrica . Ao contrário do que se pensa, nada mudou já que continuamos exaustos, chateados e enlouquecidos. O que mais se quer, hoje em dia, é qualidade de vida; qualidade essa que já não significa mais viajar para o exterior, ter um salário altíssimo ou comprar um helicóptero. O bem mais escasso dos nossos dias é o tempo – o índice de qualidade de vida. Ganha, portanto, quem arruma tempo para estudar idiomas, tomar um bom vinho, jantar com o marido, brincar com os filhos, sorrir com os amigos, ler Shakespeare ou contar piadas.
Do que, meu Deus, adiantam as garantias de FGTS, repouso semanal remunerado, férias, licença maternidade e o caralho a quatro?! A gente só quer ter tempo para o ócio criativo – que não é aquele do Domenico De Masi.
Ao vencedor, as batatas!
Eu acredito ter impressões e sentimentos exclusivos. É como se eu tivesse certas reações, me chateasse ou ficasse imensamente feliz por motivos capazes de causar tudo isso apenas em mim e em mais ninguém. Em conseqüência do meu crescimento pessoal (hein?), cheguei a uma conclusão – quase temporária: essas impressões e reações não são privativas. Read the rest of this entry »
Após muitas e muitas horas de sono, chegou o domingo. Céu de brigadeiro e uma brisa bem levinha lá fora. Apesar da cidade estar feia, toda marrom, é bom olhar pra cima porque ainda há uma certa beleza na copa das árvores – as que ainda estão com folhas.
A verdade é que manhã de domingo me lembra o Rio. Eu não morro de amores por aquela cidade, nem sou fã de praia, mas ir à praia no meio da manhã de um domingo é uma das melhores coisas do planeta. Justamente nessas horas é que se descobre a razão de Vinicius de Moraes ter escrito “Garota de Ipanema”, por exemplo. O Rio é inspirador.
Sentar à sombra, tomar um chope, olhar a paisagem e não ter compromisso são suficientes para nos transformar em “quase-vinicius”. Somos inspirados por toda aquela atmosfera e falamos de amor, de sonhos e de Vinicius. É como se as conversas fossem purificadas pelo mar, pelo sol e por toda a poesia que já fora escrita em Copacabana e Ipanema.
O lado pessimista do surto que nos acomete é que chega a hora do almoço e, rapidamente, 17h30 – outro chope, outro momento de contemplação e o pôr do sol e, logo, segunda-feira. Tudo o que guardamos de Vinicius é o lado boêmio porque não conseguimos reunir essa característica às demais: “poeta, diplomata e músico” – ao mesmo tempo.
A moral da história é que o ócio é absolutamente necessário para se alcançar a plenitude do ser. Rá!
Reparem que Vinicius acende um cigarro e sopra a fumaça na cara do Tom Jobim. Reparem também o copo de whisky sobre o piano Yamaha. E, ao final, falam da Helô Pinheiro e, logo em seguida, dos copos vazios.
“O whisky é o melhor amigo do homem. O whisky é o cão engarrafado”.
Sempre suspeitei de não conseguir manter um diálogo com pessoas com quem convivo. Eu até converso sobre cores de tecidos, crise econômica. No entanto, tenho a impressão de que deixo de perguntar detalhezinhos ordinários que poderiam revelar o que se precisa saber sobre o outro por medo de me denunciar. A sensação é de que, falando, vou acabar não correspondendo às expectativas e, conseqüentemente, depreciar a imagem que eu penso terem de mim.
Por sofrer de perseguição cognitiva - que consiste na impressão de ser testada o tempo inteiro -, eu meço as palavras, os gestos e, até mesmo, as idéias. Acho que faço isso não só para agradar, mas também para evitar discussões mais entusiasmadas já que é muito mais fácil concordar com o interlocutor all the time.
O problema disso é que, por diversas vezes, já me peguei recordando minhas convicções e contrapondo-as ao que sai da minha boca. O resultado dessa contradição – velada para os outros, mas descarada para mim mesma – é que a consciência pode ir se deformando a tal ponto que se perde referencial sobre si próprio. Já fazia um certo tempo que eu observava uma estranheza no meu comportamento traduzida em melancolia súbita…
Preciso resolver isso. E logo. Nem que seja com a ajuda da Mercedez, a psicanalista não-freudiana.
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Outro dia eu sonhei que tinha uma conversa com ela. Eu nunca a vi, mas, no sonho, ela era uma senhorinha simpática, gorduchinha, com sotaque espanhol e que dava uns conselhos cujos motivos só ela conhecia. No consultório dela, havia uma estante cheia de livros que morro de vontade de ler. O sofá marrom era super confortável e havia uns quadros de paisagem pendurados na parede; sabe aqueles quadros que a gente bate os olhos e tem a impressão de que a pintura se mexe dependendo da intensidade com que se olha? Pois é. Ela usava roupas de cores sóbrias, mas os colares eram coloridos. O que mais me impressionou no sonho foi o fato de sentir o abraço dela. Braços curtinhos, mas muito calorosos. O sorriso dela era tímido e vinha seguido de um: “Que alegría verte!”. Eu poderia falar um monte da Mercedez e dos detalhes do sonho…
A Mercedez é mais uma daquelas pessoas que eu não conheço, mas sinto saudades e chego a inseri-la nos meus pensamentos com freqüência: “a Mercedez gostaria de saber disso” ou “a Mercedez saberia o que fazer”. De qualquer forma, ela existe. Eu só preciso procurar por ela.
Decidi que visitarei Cuba antes de Fidel morrer. Por causa do circuito Hemingway, do rum, por supuesto, e disso aqui.
Apesar de ser uma pessoa não muito adepta ao “não me rotule, sou único” – porque eu acredito que rótulos realmente podem ser úteis por serem instrumentos viáveis de “organizar” pessoas/idéias/músicas -, há certos rótulos que, convenhamos, impedem a compreensão, lúcida, de determinadas correntes de pensamento.
“Participei” – entre aspas porque minha ausência nas reuniões era constante – de um grupo de pesquisa. O tal grupo consistia numa tentativa de unir alunos da graduação e do mestrado e era freqüentado por algumas pessoas muito sabidas; outras, eram apenas discípulas; e, outras, não eram nem sabidas, nem discípulas. O que mais chamava a atenção nesse grupo era que se discutia sobre tudo na reunião que ocorria sexta-feira, hora do almoço, menos o texto que todos se comprometeram a ler. Não porque se fugia completamente do assunto, mas era um momento em que cada um citava seus autores prediletos mesmo que não tivesse qualquer conexão com a pauta. Utilizavam-se deste espaço para dizerem quem eram, no que acreditavam.
E o que tem o rótulo a ver com isso?
Faltava uma certa honestidade intelectual por parte da maioria dos integrantes. As discussões caminhavam para a opinião política e, por esse motivo, eram tomadas por um cunho de autoafirmação. Assim, ao invés de se ler os textos de maneira despretensiosa, retirando as informações que, objetivamente, lá estavam, passava-se horas e horas fazendo críticas, boas ou más, sobre autor X ou Z e sobre possível rotulação de seus pensamentos. “Esse é comunista; aquele é liberal. Fulano é nazista; aquele outro, fascista”. Essas afirmações, além de serem mentirosas, impediam uma formação mais sólida. Qualquer leitura passa, antes das críticas, pelo famoso “o que está escrito aí?”. E, não “o que você entendeu?”
Um exempo disso. Certa vez, a leitura recomendada foi Kelsen – “Quem deve ser o guardião da Constitutição?” – que foi uma resposta ao “O guardião da Constituição”, do Schmitt. Todo mundo apenas leu Kelsen porque alguém disse que Schmitt era nazista e, por isso, seria perda de tempo lê-lo. Ok. Se ele era nazista ou não, não faz a menor diferença ainda que houvesse judeu no grupo. O que não dá é ler apenas o Kelsen.
Isto significa que se deve ler tudo para tecer críticas? Lógico que não. Se fosse assim, não teria graça viver sem soltar aqueles comentários venenosos sobre situações que não se sabe nada a respeito. Essa coisa de evitar os rótulos que atrapalham a formação apenas se aplica às personalidades que, de fato, mostraram seriedade em suas produções. Os que não levam a si mesmos a sério não merecem atenção. O que acontece é que algumas categorias de pensamento não são sérias – e isso não é uma questão de opinião, mas de afirmação dos próprios idealizadores de certos movimentos - e, então, pode-se abusar do uso dos adjetivos sem ter que se esforçar para ver a boa intenção por trás. Afinal, eu acredito nesta boa intenção.
Enquanto eu lavava a louça no domingo, ouvi um cd da Maria Bethânia que, basicamente, é trilha sonora para suicídio por causa de dor de cotovelo. A questão é que a voz de Bethânia levou-me a pensar sobre a forma como as mulheres, em sua maioria, acabam expondo seus sentimentos.
***
Olha você tem todas as coisas
Que um dia eu sonhei pra mim
A cabeça cheia de problemas
Não me importo, eu gosto mesmo assim
Tem os olhos cheios de esperança
De uma cor que mais ninguém possui
Me traz meu passado e as lembranças
Coisas que eu quis ser e não fui
Olha você vive tão distante
Muito além do que eu posso ter
E eu que sempre fui tão inconstante
Te juro, meu amor, agora é prá valer
Olha, vem comigo aonde eu for
Seja meu amante, meu amor
Vem seguir comigo o meu caminho
E viver a vida só de amor
***
Ao ouvir algumas composições da Dolores Duran, ler escritos de Virginia Woolf ou Jane Austen, vê-se que as fêmeas acabam se expondo de uma forma muito complexa. O sentimental feminino parece estar ligado à própria existência. É como se não soubéssemos diferenciar crises afetivas de crises existenciais, por exemplo. Se estou encalhada, a culpa é do meu comportamento e da forma como encaro a minha vida. Com os homens, as coisas parecem estar compartimentadas, isto é, eles parecem saber definir muito bem o que é estar feliz no relacionamento, mas não estar bem resolvido com o sentido sobrenatural de suas vidas, whatever.
Esclarecimento: não sou feminista, mas, talvez, um pouco machista. De qualquer forma, a idéia não é fazer uma comparação estanque com esse discurso de gênero. São apenas impressões supérfulas, muito supérfulas.
Como nós, mulheres, colocamos todas as “áreas da vida” no mesmo pacote, acabamos por sermos românticas de uma maneira muito dramática, digo, intensa. Não é pelo excesso de emotividade, mas pelo peso que se coloca nas relações com os rapazes. É como se o cabelo bonito, o brilho nos olhos e o sorriso nos lábios fossem a solução para todas as outras questões que atormentam qualquer um, independentemente do sexo.
Por outro lado, as moças sabem muito bem que moços, de carne e osso, podem satisfazê-las afetivamente. Apesar de todos nós termos um ideal de homem/mulher, as mulheres parecem estar mais próximas da realidade. É justamente por isso que algumas expressões artísticas de autoria de mulheres são relacionadas a coisas muito paupáveis, situações em que todas as fêmeas se vêem. Isto não significa que produções femininas sejam melhores ou piores que as produções masculinas. São, apenas, femininas.
Acho que só as mocinhas entendem isso… Por mais que se diga que se é um tipo ogro ou blasé de mulher, na hora do romantismo, somos todas iguais: melosas e manhosas. Porém, realistas de um jeito que só nós compreendemos. Digamos que somos realistas, mas, no fundo, assumimos que, realmente, não estamos tão próximas da realidade como acreditamos estar. Entendeu? Não? Nem eu. Talvez não seja mesmo pra entender.
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